Dor abdominal crônica: guia para identificar a causa do problema

Postado em: 08/09/2026

Toda semana atendo pelo menos um paciente que já passou por dois ou três médicos antes de chegar ao meu consultório, sempre com a mesma queixa: uma dor no abdômen que não passa, ou que volta sempre no mesmo lugar.

Já fez exame de sangue, já tentou remédio para gastrite, e a dor continua ali, atrapalhando a rotina.

Esse ciclo tem explicação. A dor abdominal crônica pode vir de causas bem diferentes entre si, e cada uma pede uma investigação própria.

Neste texto explico como organizo essa investigação no consultório, quais doenças do aparelho digestivo mais aparecem por trás dela e em que momento a avaliação de um cirurgião passa a fazer sentido.

O que caracteriza a dor abdominal crônica

A dor abdominal crônica é o desconforto no abdômen que persiste ou volta por mais de três meses, com intensidade que varia de leve a incapacitante.

Diferente da dor aguda, que costuma indicar uma urgência, ela pede investigação organizada: histórico detalhado, exame físico e exames complementares direcionados pela localização e pelo padrão da queixa.

Na consulta, procuro entender três coisas antes de qualquer exame: onde a dor aparece, o que piora ou melhora ela (alimentação, jejum, evacuação) e há quanto tempo o quadro se repete.

Essa história direciona boa parte da investigação, antes mesmo do primeiro exame de imagem.

Existem também três tipos de dor crônica que costumam se confundir na fala do paciente: a dor contínua, a que vem em crises espaçadas e a que piora progressivamente.

Cada padrão aponta para um grupo diferente de causas, e é por isso que a descrição detalhada da dor vale tanto quanto o exame físico.

Quais doenças do aparelho digestivo mais causam esse tipo de dor

Entre as doenças do aparelho digestivo que mais explicam a dor abdominal crônica na minha prática, estão a doença do refluxo e a hérnia de hiato, a colelitíase (cálculo na vesícula), a diverticulite, as hérnias da parede abdominal (inguinal, umbilical ou epigástrica) e a diástase dos músculos retoabdominais.

A colelitíase, por exemplo, costuma doer mais depois de refeições gordurosas, no lado direito superior do abdômen.

Já a diverticulite tende a doer do lado esquerdo, muitas vezes acompanhada de alteração do hábito intestinal.

As hérnias da parede abdominal, por sua vez, costumam apresentar um abaulamento visível que piora ao fazer esforço, o que já direciona o exame físico para a região certa.

Dor abdominal crônica é sempre sinal de doença grave?

Dor abdominal crônica nem sempre indica doença grave: em boa parte dos casos, a causa está ligada a hábito alimentar, ritmo intestinal ou fatores funcionais que respondem bem a ajuste clínico.

Mas ela também pode ser a manifestação inicial de colelitíase, diverticulite ou hérnia da parede abdominal, e só a avaliação clínica diferencia uma situação da outra.

O erro mais comum que vejo é o paciente demorar a procurar avaliação por achar que “deve ser só nervoso” ou “só má digestão”. Às vezes é isso mesmo. Mas a única forma de saber é investigar, e não esperar a dor piorar para procurar um médico.

Como eu chego ao diagnóstico da dor abdominal crônica

Depois da história clínica e do exame físico, a investigação costuma seguir para exames de imagem e endoscópicos: ultrassom de abdômen, endoscopia digestiva alta, colonoscopia e, quando necessário, tomografia computadorizada.

A escolha entre eles depende da localização da dor e da hipótese que já se formou na consulta. Causas comuns de dor abdominal crônica e o primeiro passo de investigação:

Causa comum Padrão típico da dor Primeiro exame considerado
Doença do refluxo / hérnia de hiato Queimação, piora deitado ou após comer Endoscopia digestiva alta
Colelitíase (cálculo na vesícula) Dor no lado direito, após refeição gordurosa Ultrassom de abdômen
Diverticulite Dor no lado esquerdo, alteração do hábito intestinal Tomografia ou colonoscopia, conforme o momento
Hérnia da parede abdominal Abaulamento que piora ao esforço Exame físico e ultrassom da parede
Diástase dos retoabdominais Projeção da linha média, sem dor intensa na maioria dos casos Exame físico dirigido

Dor abdominal difusa sempre precisa de cirurgia?

Dor abdominal difusa não precisa de cirurgia na maioria dos casos: parte considerável responde a ajuste alimentar, medicação ou acompanhamento clínico continuado.

A dor abdominal difusa passa a ser discutida com o cirurgião quando o exame de imagem mostra uma causa estrutural, como hérnia, cálculo ou processo inflamatório que não regride com o tratamento clínico.

Isso vale também para quem já ouviu falar em cirurgia robótica ou videolaparoscopia: a técnica só entra em discussão depois que a causa está definida. Não existe atalho que pule a etapa do diagnóstico.

Quando devo procurar um cirurgião do aparelho digestivo

Procurar avaliação cirúrgica faz sentido quando a dor abdominal crônica vem acompanhada de emagrecimento sem explicação, sangramento, febre recorrente, vômitos persistentes ou quando o tratamento clínico já foi tentado sem melhora.

Nessas situações, a avaliação especializada define se o caso pede cirurgia ou pode continuar em acompanhamento clínico.

Como conduzo a investigação no meu consultório

Na primeira consulta, faço a história clínica detalhada, o exame físico minucioso e reviso os exames que o paciente já trouxer.

A partir daí, monto a hipótese diagnóstica e explico o plano de investigação passo a passo, incluindo o que esperar de cada exame e por que ele foi escolhido.

Atuo há 27 anos em cirurgia do aparelho digestivo, com atuação em Uberlândia, e essa etapa de escuta é o que direciona todo o resto da conduta.

Perguntas frequentes sobre dor abdominal crônica

Dor abdominal crônica tem cura?

Depende inteiramente da causa. Quando a origem é uma hérnia, um cálculo na vesícula ou um processo inflamatório localizado, o tratamento (clínico ou cirúrgico, conforme o caso) costuma resolver a causa. Quando a origem é funcional, o manejo costuma ser contínuo, focado em controle dos sintomas.

Dor abdominal crônica pode ter relação com estresse ou ansiedade?

Pode, sim: o intestino responde a fatores emocionais, e isso é reconhecido na literatura médica. Mas essa possibilidade só deve ser considerada depois de descartadas as causas estruturais, nunca como primeira hipótese.

Preciso fazer endoscopia mesmo se os exames de sangue estiverem normais?

Em muitos casos sim. Exame de sangue normal não descarta hérnia de hiato, gastrite ou lesões que só aparecem no exame endoscópico direto. A indicação depende do padrão da dor apresentado na consulta.

Toda dor abdominal recorrente indica hérnia?

Não. A hérnia costuma vir acompanhada de abaulamento visível que piora com esforço. Dor recorrente sem esse sinal físico direciona a investigação para outras causas, como refluxo ou alteração do hábito intestinal.

Colonoscopia dói?

O exame é feito sob sedação na grande maioria dos serviços, o que reduz bastante o desconforto relatado. A recuperação costuma ser rápida, com liberação para atividades leves no mesmo dia, a depender da orientação do anestesista.

Acompanhamento das doenças do aparelho digestivo com o Dr. João Bosco Chadu Junior

Atendo em Uberlândia, na Clínica Endovita (Vitis Medcenter, Santa Mônica) e na Clínica UGC (Centro Clínico UMC, Jardim Karaíba), com atuação em cirurgia do aparelho digestivo, cirurgia geral, endoscopia digestiva e cirurgia bariátrica.

Se a dor abdominal persiste ou já apareceu mais de uma vez, o próximo passo é uma avaliação que organize a investigação a partir do seu histórico. Agende uma consulta para avaliação da dor abdominal.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com um médico. Cada caso pede avaliação individual antes de qualquer decisão sobre tratamento.

Dr. João Bosco Chadu Junior

Cirurgia do Aparelho Digestivo
Registro CRM: 33556/MG | RQE: 21953